Dr. Salvador – EMPREENDEDORISMO E INOVAÇÃO NO ENTORNO DA TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO

EMPREENDEDORISMO E INOVAÇÃO NO ENTORNO DA TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO

Antônio Salvador da Rocha*

 

Na condição de integrante do grupo de acadêmicos da Academia Cearense de Engenharia, no período de 26/10 a 29/10/2016, visitamos as obras do Projeto de Integração do Rio São Francisco, no trecho Eixo Norte. Tivemos a oportunidade, rara, de conhecer uma das maiores obras hídricas do mundo. Identificamos as novas tecnologias utilizadas, e o estágio de conclusão das obras e serviços nos municípios de Jati, Brejo Santo e Mauriti, no Ceará, e Cabrobó e Salgueiro, em Pernambuco. Constatamos que, aproximadamente, 90 % dos canais, túneis, aquedutos, reservatórios, e elevatórias já estão em condições de operação. No entanto, são preocupantes os sucessivos atrasos no prazo de conclusão da obra, agora previsto para o final de 2017. O atraso na chegada da água ao Ceará aumenta de gravidade, diante do prolongado período de seca que assola o Nordeste brasileiro, nos últimos cinco anos. Por essa razão, e no âmbito de sua missão institucional, a Academia Cearense de Engenharia realizou um relatório técnico da visita, e publicou, nos principais jornais do Ceará, uma nota com sugestões de ações a serem adotadas pelos órgãos públicos, diretamente envolvidos com a obra.

A primeira iniciativa para transposição das águas do Rio São Francisco data de  1847 (período do Império Brasileiro de Pedro II). Desde essa época, por falta de decisão política, limitações de conhecimentos de engenharia, máquinas e  equipamentos e por limitações financeiras a obra só foi iniciada em julho de 2007.

A Transposição do Rio São Francisco deve guardar estreita relação com as políticas públicas regionais dos segmentos industrial, do agronegócio, da cultura, da educação, especialmente a ambiental, do turismo, do empreendedorismo e, em especial, com o projeto nacional que contempla a interiorização do desenvolvimento do nordeste.

A grandiosa obra da Transposição, que vai beneficiar doze milhões de habitantes, em 390 comunidades, incorpora os fundamentos científicos e tecnológicos da engenharia, para superar as condições geológicas, do clima, dos recursos hídricos, dos solos e da incorporação dos recursos humanos locais, ancorados na sustentabilidade ambiental, econômica e social.

Nos últimos séculos, os políticos e a população brasileira, erradamente, divulgam a ideia de que o nordeste é árido, faminto e pobre devido ao implacável fenômeno da seca, responsabilizando-o por todos os males sociais e  econômicos da região.

É indiscutível que a seca dificulta e agrava os problemas da região, mas está longe de ser a causa única de todas as dificuldades locais. É de conhecimento dos técnicos que há, em diferentes regiões do mundo, volumes pluviométricos semelhantes às do nordeste, mas com consequências diferentes.

 Antônio Salvador da Rocha – Engenheiro Eletricista, Membro Fundador da ACE.

A baixa produtividade agrícola da região está diretamente correlacionada com a irregularidade e má distribuição das chuvas, com os solos cristalinos predominantes e com a degradação ambiental da região. Se não podemos mudar a natureza, a única alternativa que nos resta é aplicar, corretamente, a tecnologia e a inovação, para aumentar a produção agrícola e a não agrícola. A implantação de políticas públicas, o uso de tecnologias apropriadas para o agronegócio irrigado e o aproveitamento racional das poucas áreas propicias à agricultura de sequeiro são fundamentais para viabilizar a economia do semiárido nordestino. Por não dominarmos o conhecimento dessa área deixaremos para os especialistas em agronomia da ACE a responsabilidade de abordar, corretamente, o assunto.

Por outro lado é de fundamental importância o fortalecimento e a expansão das atividades de CT&I, nos ambientes educacionais e do negócio, para viabilizar o trabalho não agrícola e o empreendedorismo nas localidades por onde passam as obras de Transposição. Devem ser criados indicadores e mecanismos de acompanhamento e avaliação dos benefícios derivados da obra de transposição.

A formulação e execução de políticas públicas efetivas para  transformar a matriz de desenvolvimento do nordeste brasileiro deve contemplar a capacidade de produzir da população, novos arranjos produtivos, e de organização da produção, fortemente ancoradas na CT&I resultará em efeitos positivos advindos da transmissão, geração e uso de novos conhecimentos.

A experiência internacional demonstra que não existe país desenvolvido que conviva com desigualdades extremas. Daí porque é preciso tirar o máximo benefício da elevada correlação existente entre os investimentos em CT&I e o crescimento do PIB.

É através da CT&I que será possível a criação de novos produtos, utilização de novos processos, e identificação de formas diferenciadas de produção e comercialização, em atividades não agrícolas. Há necessidade de criar novos mecanismos de geração de negócio não agrícola, para que a água seja utilizada, prioritariamente, para o abastecimento humano.

Sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto, apresentamos, a seguir, propostas de ações, programas e projetos para geração de emprego e renda não agrícola no entorno das obras de transposição/integração do Rio São Francisco:

• promover pesquisas relativas a setores em que cada região tem vantagens competitivas;

• estimular a interação entre as instituições científicas e tecnológicas da região com os setores produtivos e governamentais, visando à introdução de produtos, processos e serviços inovadores, e para a adequação/adaptação das tecnologias aos insumos e cultura locais;

• divulgar novas tecnologias existentes e estimular à absorção das mesmas;

• criar e expandir aceleradoras, incubadoras, parques tecnológicos e mini-distritos industriais que abriguem empresas industriais, do agronegócio e de serviços, em polos de desenvolvimento próximos à Transposição;

• criar mecanismos de aproximação entre as instituições científicas e tecnológicas com o setor empresarial e prefeituras, para que seu potencial científico e tecnológico seja uma ferramenta de desenvolvimento da região do entrono da Transposição;

• apoiar programas e projetos de pesquisa e de transferência de tecnologias para empresas e prefeituras, para aumentar a inovação de produtos, processos e serviços, nas mesmas;

• apoiar/criar políticas públicas para melhoria da gestão empreendedora e estratégica de micro e pequenas empresas e prefeituras do entorno da Transposição;

• criar/fortalecer programas e projetos para capacitação, nos diversos níveis educacionais, para formação, qualificação e requalificação profissionais dos recursos humanos do entorno da Transposição;

• implementar programas e projetos de gestão e educação ambiental para disseminar e possibilitar a absorção do conhecimento, garantindo-se a sustentabilidade; Instalação e manutenção de computadores;

• Promover a inclusão digital dos jovens através de cursos básicos de informática e  acesso à Internet; Elaboração de homepage; Redes computacionais e conectividade;

• Formar os jovens em Empreendedorismo e incentivar, financeiramente a criação de micro e pequenas empresas;

• Criar mecanismos para o uso e gestão compartilhada dos recursos naturais, vinculando-os ao desenvolvimento econômico e social e à proteção do meio ambiente.

• Definir mecanismos para consolidar as questões econômicas, sociais e ambientais do projeto de Transposição, garantindo-se o desenvolvimento sustentável do seu entorno;

• Implementar programas e projetos integrados de manejo dos recursos naturais, respeitando-se a diversidade dos ecossistemas e das microrregiões do entorno da Transposição;

• Implementar projetos de produção de energia solar sobre os canais e reservatórios do projeto de transposição, contribuindo para redução de evaporação da água;

• Implementar projetos de produção de geração de energia eólica e/ou sistemas distribuídos para abastecer as comunidades localizadas no entorno da Transposição;

• implantar programas e projetos para inclusão das prefeituras municipais e comunidades locais na promoção e defesa do meio ambiente;

• promover eventos técnico-científico-educativos para formação de agentes multiplicadores em educação ambiental e em tecnologias apropriadas ao desenvolvimento de cada região;

• monitorar, conservar e recuperar áreas degradadas, resultantes do mau uso de atividades agrícolas, industrias, de mineração, de extração de areia, de obras de infraestrutura, de assentamentos urbanos e rurais, e outras atividades, na região do entorno da Transposição;

Finalizamos afirmando que somente com investimentos em ciência, tecnologia e inovação será possível aumentar a capacidade produtiva e competitiva dos diversos setores da economia no entorno da obra de Transposição do Rio São Francisco, razão porque as propostas apresentadas devem ser objeto de debates para otimização e ampliação das propostas apresentadas.

Aqui, cabe uma recomendação final para a reestruturação do DNOCS, com investimentos para a atualização tecnológica da instituição e ampliação de seus recursos humanos, para que ele possa gerenciar o uso e a manutenção do projeto. Ou, a realização de estudo de viabilidade técnica e econômica para a criação de uma empresa nova, com o objetivo específico de criar e gerir uma política inclusiva para o uso racional da água transposta.